ENTRETENIMENTO A SERVIÇO DA EDUCAÇÃO E DA ESPIRITUALIDADE

RESPONSABILIDADE E CULPA

Por Mark Manson

Anos atrás, quando eu era bem mais jovem e bem mais idiota, publiquei um post no meu blog que se encerrava mais ou menos assim: “É como disse um grande filósofo: ‘Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades’.” Achei que soava legal, marcante. Embora eu não conseguisse lembrar quem era o autor da frase e minha pesquisa no Google tivesse sido infrutífera, postei mesmo assim. A frase era perfeita para o post.

Uns dez minutos depois chegou o primeiro comentário: “Acho que esse grande filósofo é o tio Ben, do Homem-Aranha”.

Como disse outro grande filósofo: Putz!

“Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.” São as últimas palavras do tio Ben, logo antes de morrer pelas mãos de um bandido que Peter Parker deixa escapar. Ben morre, caído no meio da rua cheia de gente passando pra lá e pra cá, sem a menor razão de ser. Ben, o grande filósofo.

Todo mundo já ouviu essa frase. Ela é muito repetida – em geral com ironia, depois de umas sete cervejas.

Uma daquelas citações perfeitas que parece muito inteligente, mas que basicamente só está dizendo algo que você já sabe, mesmo que nunca tenha pensado no assunto.

“Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”

É verdade. Mas existe uma versão melhor dessa frase, uma que é realmente profunda. Basta trocar os substantivos de lugar: com grandes responsabilidades, vêm grandes poderes.

À medida que assumimos a responsabilidade por nossa vida, mais poder adquirimos para mudá-la. Assim, aceitar-se responsável é o primeiro passo para resolver os seus problemas.

Um conhecido meu estava convencido de que não arranjava namorada porque era baixo demais. O cara era culto, interessante e bonito – um bom partido, em teoria -, mas estava resolutamente convencido de que era desprezado pelas mulheres por ser muito pequeno.

E como ele se julgava baixo demais, não saía muito. Nas poucas vezes que criava coragem e conversava com alguém, ficava atento aos menores indícios de rejeição a sua aparência física e depois se convencia de que a mulher em questão não tinha gostado dele.

Como é de se imaginar, a vida amorosa do cara era um marasmo.

O que esse sujeito não percebia era que ele tinha escolhido o valor que o prejudicava: a altura. Na cabeça dele, ser alto era imprescindível para impressionar as mulheres. Não tinha jeito: ele estava ferrado.

(…)

Muita gente hesita em assumir a responsabilidade por seus problemas porque acredita que ser responsável por eles é ser também culpado.

Em nossa cultura, responsabilidade e culpa costumam caminhar juntas, embora não sejam sinônimos. Se eu bato no seu carro, não só tenho culpa como sou legalmente responsável por compensá-lo de alguma forma. Não importa se foi um acidente; continua sendo responsável pelas consequências. É assim que a culpa funciona hoje em dia: fez m*, então conserta. E é assim que deve ser.

Ao mesmo tempo, existem problemas que são de nossa responsabilidade mesmo que a culpa não seja nossa. Por exemplo: um dia você acorda e encontra um bebê recém-nascido na sua porta. Não é culpa sua que ele tenha sido colocado ali, mas o bebê passa a ser de sua responsabilidade. Você precisa escolher o que fazer, e qualquer escolha que fizer (adotar o bebê, se livrar dele, ignorá-lo, mandá-lo pegar um táxi para casa) vai gerar problemas – pelos quais você também será responsável.

(…)

Eis uma forma simples de diferenciar mais claramente os dois conceitos: culpa é passado, responsabilidade é presente. A culpa aponta para escolhas já feitas, enquanto a responsabilidade aponta para escolhas que estão sendo feitas agora, a cada segundo de cada dia. Você está escolhendo ler isto. Está escolhendo pensar sobre os conceitos. Está escolhendo adotá-los ou não. Pode ser culpa MINHA se você achar essas ideias ridículas, mas VOCÊ é responsável pelas suas conclusões.

(…)

Todo mundo adora assumir a responsabilidade por tudo de bom e feliz que acontece. Muitas vezes tem até briga por esse crédito. No entanto, assumir a responsabilidade pelos nossos problemas é muito mais importante, porque é daí que vem o verdadeiro aprendizado. É daí que vem o progresso. Culpar os outros é apenas escolher sofrer.

 

 

Publicado no livro

“A Sutil Arte de Ligar o F***-se – Uma estratégia inusitada para uma vida melhor”

Mark Manson

Editora Intrínseca

 

 

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